Acordei hoje travada, depois de um estalo no pescoço e tudo travado, sem conseguir olhar para o lado e meio que sem mexer o braço direito. Depois achei esse textinho, super interessante e compatível com a situação. Agora já estou melhor, um pouco com dor mas bem.
Dor no pescoço simboliza a inflexibilidade de seus pensamentos e a dificuldade de relaxar em relação às cobranças alheias e mesmo à auto-cobrança.
A pessoa que não quer deixar de ter opiniões rígidas e recusa-se duramente a mudar seus hábitos, vai ganhar um pescoço duro, igual à sua cabeça. Pessoas perfeccionistas normalmente têm muitos torcicolos.
Muitas vezes, as pessoas acordam com o pescoço doendo e nem conseguem girar a cabeça para o outro lado, reclamam: Dormi de mau jeito por isso estou assim. Tomei um golpe de vento ontem, e hoje acordei mal. E assim por diante.
Acontece que estas são apenas justificativas e não explicações reais para as dores.
Com estes exemplos, você pode ver como o consciente reage por não saber ou não ter se preocupado em aprender a linguagem do corpo. Enquanto não tomarmos consciência daquilo que acontece com nosso corpo, estaremos tentando eternamente achar resposta para nossos problemas, percorrendo o caminho oposto ao da verdade.
Se você estiver com dor no pescoço ou torcicolo, pare e pense um pouco. Analise seus últimos atos ou pensamentos contra algo ou alguém. Lembre-se de algum episódio durante o seu dia de ontem ou anteontem. Será que você não esta sendo teimoso com alguém ou com alguma idéia fixa? Será que você não está sendo insistente demais em querer que determinada pessoa pare de agir daquele jeito que tanto desagrada você?
Sempre haverá uma resposta, mas se você não souber saudavelmente voltar atrás e desistir de alguns aspectos negativos da sua conduta, seu pescoço continuará doendo e mostrando que você ainda não consegue olhar para o outro lado da questão. E literalmente, você não conseguirá olhar para o lado, a não ser que gire o corpo todo.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Como disse no meu fotolog. Tentarei aparecer mais por aqui. =)
Aconteceu algo muito curioso hoje ao acordar e estive pensando. Se estou vulnerável é porque não estou em posição de prevenir. Por que uma pessoa é vulnerável e outra não? Quero converter minha vulnerabilidade em imunidade. Me torno exposta aos problemas de vulnerabilidade porque provavelmente em alguma vida passada não fui capaz de superar meu desejo de receber errado. Nada é por acaso e tenho certeza que essa dor é para algum ensinamento, mesmo que eu não veja tudo no momento.
“A exposição a traumas e infortúnios que acompanham a vulnerabilidade acontece nesta vida exatamente nos mesmos pontos do tempo em que estivemos expostos em vidas passadas. Se numa vida anterior falhamos em nosso processo de Tikun em restringir o impulso de roubar, então teremos nesta vida uma outra oportunidade de livre escolha para decidir se iremos ou não superar o impulso de roubar através da Restrição. O conhecimento é a conexão para o controle sobre nossos corpos e sobre a doença quando ela ataca. Devemos fazer todo o esforço possível para compreender e conhecer os ensinamentos do Zohar Pinchas. Devemos nos precaver contra os indivíduos equivocados que continuam a nos desviar do caminho afastando-nos dos ensinamentos do Zohar, argumentando que o Zohar é somente para uns poucos escolhidos.” (Rav Berg)
Aconteceu algo muito curioso hoje ao acordar e estive pensando. Se estou vulnerável é porque não estou em posição de prevenir. Por que uma pessoa é vulnerável e outra não? Quero converter minha vulnerabilidade em imunidade. Me torno exposta aos problemas de vulnerabilidade porque provavelmente em alguma vida passada não fui capaz de superar meu desejo de receber errado. Nada é por acaso e tenho certeza que essa dor é para algum ensinamento, mesmo que eu não veja tudo no momento.
“A exposição a traumas e infortúnios que acompanham a vulnerabilidade acontece nesta vida exatamente nos mesmos pontos do tempo em que estivemos expostos em vidas passadas. Se numa vida anterior falhamos em nosso processo de Tikun em restringir o impulso de roubar, então teremos nesta vida uma outra oportunidade de livre escolha para decidir se iremos ou não superar o impulso de roubar através da Restrição. O conhecimento é a conexão para o controle sobre nossos corpos e sobre a doença quando ela ataca. Devemos fazer todo o esforço possível para compreender e conhecer os ensinamentos do Zohar Pinchas. Devemos nos precaver contra os indivíduos equivocados que continuam a nos desviar do caminho afastando-nos dos ensinamentos do Zohar, argumentando que o Zohar é somente para uns poucos escolhidos.” (Rav Berg)
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
*[Álvaro de Campos]*
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
*[Álvaro de Campos]*
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Moça, olha só o que eu te escrevi
É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê
Sei que a tua solidão me dói
E que é difícil ser feliz
Ando sumida. Sumida daqui. Por aqui ando muito aparecida. Está tudo bem, não existem mais monstros. Está tudo bem mesmo. Mas vim aqui escrever pra que VOCÊ fique bem prima, queira estar bem, queira ser sua fonte de alegria. Se eu pudesse estar aí agora de corpo presente... Mas estou aí com você, fecha os olhos e você vai me sentir pertinho como sempre foi, você se lembra? Você consegue, você é mais forte que isso. Você sabe. Coloque aquela música que mais te faça sorrir, dance, sorria e se sinta livre dessa prisão que você inventou e caiu dentro e fechou sem saber onde estava a chave. Você tem a chave, ta tudo na cabeça. Tentaram te ensinar que amor é isso, mas o amor não é isso não. Quem gosta, não faz isso não, prima. Não faz isso mesmo. Deus está sempre ao seu lado e ele sofre ao ver você errando novamente. Ele quer você sorrindo sempre, não é difícil vai... Basta um esforço. Você não inventou uma prisão? Pode inventar outra coisa qualquer. Não é culpa dos outros, a culpa é sempre nossa, permitimos isso de alguma forma, fizemos de alguma forma. Continua prima, continua firme, se não for por você, seja por mim. Não mate tudo de mais bonito que existe dentro de você. Não soltei da sua mão.
É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê
Sei que a tua solidão me dói
E que é difícil ser feliz
Ando sumida. Sumida daqui. Por aqui ando muito aparecida. Está tudo bem, não existem mais monstros. Está tudo bem mesmo. Mas vim aqui escrever pra que VOCÊ fique bem prima, queira estar bem, queira ser sua fonte de alegria. Se eu pudesse estar aí agora de corpo presente... Mas estou aí com você, fecha os olhos e você vai me sentir pertinho como sempre foi, você se lembra? Você consegue, você é mais forte que isso. Você sabe. Coloque aquela música que mais te faça sorrir, dance, sorria e se sinta livre dessa prisão que você inventou e caiu dentro e fechou sem saber onde estava a chave. Você tem a chave, ta tudo na cabeça. Tentaram te ensinar que amor é isso, mas o amor não é isso não. Quem gosta, não faz isso não, prima. Não faz isso mesmo. Deus está sempre ao seu lado e ele sofre ao ver você errando novamente. Ele quer você sorrindo sempre, não é difícil vai... Basta um esforço. Você não inventou uma prisão? Pode inventar outra coisa qualquer. Não é culpa dos outros, a culpa é sempre nossa, permitimos isso de alguma forma, fizemos de alguma forma. Continua prima, continua firme, se não for por você, seja por mim. Não mate tudo de mais bonito que existe dentro de você. Não soltei da sua mão.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
[de re- + partir.]
v. t. d.
1. separar em partes; dividir por grupos; distribuir, dividir
2. dispor em diferentes locais ou por diferentes vezes
v. t. d. e i.
3. dar em quinhão; distribuir, dividir
4. ocupar, aplicar, empregar, utilizar
5. partir, compartir, partilhar, compartilhar
v. t. d. e c.
6. dispor (em diferentes lugares, ou por diversas vezes, ou para diversos destinos); distribuir
v. p.
7. separar-se em duas ou mais partes; dividir-se, ramificar-se
8. ir por diversas partes ao mesmo tempo; dispersar-se, espalhar-se
9. dividir a atenção por muitos assuntos:
v. t. d.
1. separar em partes; dividir por grupos; distribuir, dividir
2. dispor em diferentes locais ou por diferentes vezes
v. t. d. e i.
3. dar em quinhão; distribuir, dividir
4. ocupar, aplicar, empregar, utilizar
5. partir, compartir, partilhar, compartilhar
v. t. d. e c.
6. dispor (em diferentes lugares, ou por diversas vezes, ou para diversos destinos); distribuir
v. p.
7. separar-se em duas ou mais partes; dividir-se, ramificar-se
8. ir por diversas partes ao mesmo tempo; dispersar-se, espalhar-se
9. dividir a atenção por muitos assuntos:
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Vagina Dentada
Eu deveria cantar.
Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a igreja da Consolação, rezar um Pai Nosso, uma Ave Maria e uma Glória ao Pai, tudo que eu lembrava, depois enfiar algum trocado, se tivesse, e nos últimos meses nunca, na caixa de metal "Para as Almas do Purgatório". Agradecer, pedir luz, como nos tempos em que tinha fé.
Bons tempos aqueles, pensei. Acendi um cigarro. E não tomei nenhuma dessas atitudes, dramáticas como se em algum canto houvesse sempre uma câmera cinematográfica à minha espreita. Ou Deus. Sem juiz nem platéia, sem close nem zoom, fiquei ali parado no começo da tarde escaldante de fevereiro, olhando o telefone que acabara e desligar. Nem sequer fiz o sinal da cruz ou levantei os olhos para o céu. O mínimo, suponho, que um sujeito tem a obrigação de fazer nesses casos, mesmo sem nenhuma fé, como se reagisse a uma espécie de reflexo condicionado místico.
Acontecera um milagre. Um milagre à toa, mas básico para quem, como eu, não tinha pais ricos, dinheiro aplicado, imóveis nem herança e apenas tentava viver sozinho numa cidade infernal como aquela que trepidava lá fora, além da janela ainda fechada do apartamento. nada muito sensacional, tipo recuperar de súbito a visão ou erguer-se da cadeira de rodas com o semblante beatificado e a leveza de quem pisa sobre as águas. Embora a miopia ficasse cada vez mais aguda e os joelhos tremessem com freqüência, não sabia se fome crônica ou pura tristeza, meus olhos e pernas ainda funcionavam razoavelmente. Outros órgãos, verdade, bem menos.
Toquei o pescoço. E o cérebro, por exemplo.
Já chega, disse para mim mesmo, parado nu no meio da penumbra gosmenta do meio-dia. Pense nesse milagre, homem. Singelo, quase insignificante na sua simplicidade, o pequeno milagre capaz de trazer alguma paz àquela série de solavancos sem rumo nem ritmo que eu, com certa complacência e nenhuma originalidade, estava habituado a chamar de minha vida, tinha um nome. Chamava-se - um emprego.
Olhei minha cara no velho espelho riscado, as marcas que eu nem sabia mais se pertenciam ao vidro ou à pele, cumprimentei com uma curvatura de cabeça: "Muito bem, parabéns. Você agora tem um emprego". Mas não conseguia sentir nenhum calafrio de dignidade, nenhum frêmito de esperança que pudesse iluminar meus olhos vermelhos ou empurrar para fora meu fatigado peito onde - não queria lembrar, mas lembrei - há menos de uma semana descobrira o primeiro fio de cabelo branco.
Suspirei.
Verdade que só um completo idiota ou alguém totalmente inexperiente sentiria, nem digo êxtase, mas qualquer espécie de animação por ter conseguido um trabalhinho de repórter no Diário da Cidade, talvez o pior jornal do mundo. Acho que ainda não tinha me transformado num idiota, não completamente pelo menos. E quanto à experiência - bem, aquela cara marcada, ainda inchada de sono, com barba de três dias, me observando por entre os risos do espelho, parecia tê-la de sobra. Tudo bem, disse a cara no espelho, já que você prefere mesmo confundir experiência com devastação... Suspirei outra vez. Não, querida cara, encher laudas e laudas nas máquinas de escrever daquele pasquim pré-informático certamente não era motivo para dar pulinhos.
Mas eu tinha que ficar contente. E quando você quer, você fica. Comecei a ficar. Afinal, aquele podia ser o primeiro passo para emergir do pântano de depressão e autopiedade onde refocilava há quase um ano. Gostei tanto da expressão pântano-de-depressão-&-etc. que quase procurei papel para anotá-la. Perdera o vício paranóico de imaginar estar sendo sempre filmado ou avaliado por um deus de olhos multifacetados, como os das moscas, mas não o de estar sendo escrito. Se fosse bailarino, talvez imaginasse estar constantemente, em qualquer movimento, sendo esculpido? Ah, cada gesto, uma verdadeira apologia estética da forma pura.
Era engraçado. E bastante esquizofrênico. mas de repente o real tinha-se tornado bem menos retórico.
"Você começa hoje, cara" - dissera Castilhos no telefone. Com aquela voz no fundo da qual, para manter o velho hábito subliterário, eu poderia localizar algo que chamaria de áspera-ternura-cúmplice, mas na verdade não passava de excesso de nicotina e saco cheio: "e vê se não me faz cagada logo no primeiro dia, oquêi? Garanti pros homens que você é da pesada".
Espantoso: na noite anterior eu fora dormir como um jornalista desempregado, endividado, amargo, solitário e desiludido de quase quarenta anos para acordar no dia seguinte, magicamente, com aquela voz do passado me comunicando pelo telefone que eu era - da pesada. A partir de hoje, uma vida feita de fatos. Ação, movimento, dinamismo. A claquete bate. Deus vira mais uma página de seu infinito, chatíssimo roteiro. O escultor tira outra lasca do mármore.
Coloquei água para fazer café, cogumelos branquicentos cresciam na umidade da cozinha. Simpáticos, até meio bucólicos. Liguei o rádio, entrei no chuveiro. O apartamento era tão pequeno que a gente podia fazer todas essas coisas praticamente ao mesmo tempo. Com uma das mãos, ensaboava a cabeça, com a outra controlava o volume do rádio na sala, enquanto estendia uma das pernas para apagar o fogo quando a água fervesse.
- Eia! Avante! Sus! - gritei embaixo da água gelada. Ai - pi - ai - ô, Silver!
Enquanto ouvi no rádio uma música que parecia conhecida. Dizia qualquer coisa como "a realidade não importa, o que importa é a ilusão", no que eu concordava plenamente. Pelo menos nos últimos meses, não me acontecera nada além de fantasias. Mas a música que ressoava em algum porão da memória era antiga como um bolero, um fox, e o que saía do rádio agora era um desses rocks com baixo elétrico desesperados, percussão envenenada e sintetizadores histéricos. A voz da cantora lembrava vidro moído num liquidificador. De qualquer forma, pensei, a letra está certa. E todas as coisas que eu lembrava, ou achava que lembrava, porque de tanto lembrar delas acabara por transformá-las em mera - e péssima - literatura, já não importavam mais.
O resto do último sabonete escorregou entre meus dedos. Era tão pequeno que desapareceu pelo ralo.
*[Caio Fernando Abreu]*
Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a igreja da Consolação, rezar um Pai Nosso, uma Ave Maria e uma Glória ao Pai, tudo que eu lembrava, depois enfiar algum trocado, se tivesse, e nos últimos meses nunca, na caixa de metal "Para as Almas do Purgatório". Agradecer, pedir luz, como nos tempos em que tinha fé.
Bons tempos aqueles, pensei. Acendi um cigarro. E não tomei nenhuma dessas atitudes, dramáticas como se em algum canto houvesse sempre uma câmera cinematográfica à minha espreita. Ou Deus. Sem juiz nem platéia, sem close nem zoom, fiquei ali parado no começo da tarde escaldante de fevereiro, olhando o telefone que acabara e desligar. Nem sequer fiz o sinal da cruz ou levantei os olhos para o céu. O mínimo, suponho, que um sujeito tem a obrigação de fazer nesses casos, mesmo sem nenhuma fé, como se reagisse a uma espécie de reflexo condicionado místico.
Acontecera um milagre. Um milagre à toa, mas básico para quem, como eu, não tinha pais ricos, dinheiro aplicado, imóveis nem herança e apenas tentava viver sozinho numa cidade infernal como aquela que trepidava lá fora, além da janela ainda fechada do apartamento. nada muito sensacional, tipo recuperar de súbito a visão ou erguer-se da cadeira de rodas com o semblante beatificado e a leveza de quem pisa sobre as águas. Embora a miopia ficasse cada vez mais aguda e os joelhos tremessem com freqüência, não sabia se fome crônica ou pura tristeza, meus olhos e pernas ainda funcionavam razoavelmente. Outros órgãos, verdade, bem menos.
Toquei o pescoço. E o cérebro, por exemplo.
Já chega, disse para mim mesmo, parado nu no meio da penumbra gosmenta do meio-dia. Pense nesse milagre, homem. Singelo, quase insignificante na sua simplicidade, o pequeno milagre capaz de trazer alguma paz àquela série de solavancos sem rumo nem ritmo que eu, com certa complacência e nenhuma originalidade, estava habituado a chamar de minha vida, tinha um nome. Chamava-se - um emprego.
Olhei minha cara no velho espelho riscado, as marcas que eu nem sabia mais se pertenciam ao vidro ou à pele, cumprimentei com uma curvatura de cabeça: "Muito bem, parabéns. Você agora tem um emprego". Mas não conseguia sentir nenhum calafrio de dignidade, nenhum frêmito de esperança que pudesse iluminar meus olhos vermelhos ou empurrar para fora meu fatigado peito onde - não queria lembrar, mas lembrei - há menos de uma semana descobrira o primeiro fio de cabelo branco.
Suspirei.
Verdade que só um completo idiota ou alguém totalmente inexperiente sentiria, nem digo êxtase, mas qualquer espécie de animação por ter conseguido um trabalhinho de repórter no Diário da Cidade, talvez o pior jornal do mundo. Acho que ainda não tinha me transformado num idiota, não completamente pelo menos. E quanto à experiência - bem, aquela cara marcada, ainda inchada de sono, com barba de três dias, me observando por entre os risos do espelho, parecia tê-la de sobra. Tudo bem, disse a cara no espelho, já que você prefere mesmo confundir experiência com devastação... Suspirei outra vez. Não, querida cara, encher laudas e laudas nas máquinas de escrever daquele pasquim pré-informático certamente não era motivo para dar pulinhos.
Mas eu tinha que ficar contente. E quando você quer, você fica. Comecei a ficar. Afinal, aquele podia ser o primeiro passo para emergir do pântano de depressão e autopiedade onde refocilava há quase um ano. Gostei tanto da expressão pântano-de-depressão-&-etc. que quase procurei papel para anotá-la. Perdera o vício paranóico de imaginar estar sendo sempre filmado ou avaliado por um deus de olhos multifacetados, como os das moscas, mas não o de estar sendo escrito. Se fosse bailarino, talvez imaginasse estar constantemente, em qualquer movimento, sendo esculpido? Ah, cada gesto, uma verdadeira apologia estética da forma pura.
Era engraçado. E bastante esquizofrênico. mas de repente o real tinha-se tornado bem menos retórico.
"Você começa hoje, cara" - dissera Castilhos no telefone. Com aquela voz no fundo da qual, para manter o velho hábito subliterário, eu poderia localizar algo que chamaria de áspera-ternura-cúmplice, mas na verdade não passava de excesso de nicotina e saco cheio: "e vê se não me faz cagada logo no primeiro dia, oquêi? Garanti pros homens que você é da pesada".
Espantoso: na noite anterior eu fora dormir como um jornalista desempregado, endividado, amargo, solitário e desiludido de quase quarenta anos para acordar no dia seguinte, magicamente, com aquela voz do passado me comunicando pelo telefone que eu era - da pesada. A partir de hoje, uma vida feita de fatos. Ação, movimento, dinamismo. A claquete bate. Deus vira mais uma página de seu infinito, chatíssimo roteiro. O escultor tira outra lasca do mármore.
Coloquei água para fazer café, cogumelos branquicentos cresciam na umidade da cozinha. Simpáticos, até meio bucólicos. Liguei o rádio, entrei no chuveiro. O apartamento era tão pequeno que a gente podia fazer todas essas coisas praticamente ao mesmo tempo. Com uma das mãos, ensaboava a cabeça, com a outra controlava o volume do rádio na sala, enquanto estendia uma das pernas para apagar o fogo quando a água fervesse.
- Eia! Avante! Sus! - gritei embaixo da água gelada. Ai - pi - ai - ô, Silver!
Enquanto ouvi no rádio uma música que parecia conhecida. Dizia qualquer coisa como "a realidade não importa, o que importa é a ilusão", no que eu concordava plenamente. Pelo menos nos últimos meses, não me acontecera nada além de fantasias. Mas a música que ressoava em algum porão da memória era antiga como um bolero, um fox, e o que saía do rádio agora era um desses rocks com baixo elétrico desesperados, percussão envenenada e sintetizadores histéricos. A voz da cantora lembrava vidro moído num liquidificador. De qualquer forma, pensei, a letra está certa. E todas as coisas que eu lembrava, ou achava que lembrava, porque de tanto lembrar delas acabara por transformá-las em mera - e péssima - literatura, já não importavam mais.
O resto do último sabonete escorregou entre meus dedos. Era tão pequeno que desapareceu pelo ralo.
*[Caio Fernando Abreu]*
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